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Alta paixão sem intimidade está associada a maior agressão psicológica em relacionamentos, aponta estudo

Alta paixão sem intimidade está associada a maior agressão psicológica em relacionamentos, aponta estudo

Você já se perguntou por que tantos relacionamentos intensos — aqueles marcados por atração irresistível e emoções à flor da pele — parecem também ser os mais tóxicos? Se já viveu ou acompanhou de perto um relacionamento onde a paixão era avassaladora, mas a sensação de segurança e confiança simplesmente não existia, você não está sozinho.

Durante décadas, o senso comum repetiu uma equação tranquilizadora: onde há amor, não há violência. Onde há violência, é porque o amor acabou. Mas um novo estudo publicado no periódico Violence Against Women coloca essa crença em xeque com dados concretos — e os resultados são provocadores. A pesquisa identifica perfis distintos de amor em relacionamentos românticos e demonstra que a paixão elevada, quando desacompanhada de intimidade e compromisso, está associada a níveis mais altos de agressão psicológica grave e comportamentos de controle.

Neste artigo, você vai entender como os componentes do amor se combinam de formas específicas, por que a paixão pode se tornar um terreno fértil para a violência e o que isso significa para quem atua na clínica ou simplesmente quer compreender melhor a dinâmica dos relacionamentos humanos.

Resumo para Mentes Inquietas:

O que o estudo concluiu em quatro pontos:

  • Relacionamentos com alta paixão e baixa intimidade/compromisso apresentaram níveis mais altos de agressão psicológica grave do que relacionamentos de baixa paixão com maior vínculo emocional.
  • Pesquisadores identificaram quatro perfis de amor em uma amostra de 1.061 mulheres, usando a clássica Teoria Triangular do Amor de Sternberg.
  • O grupo com ausência de amor relatou os maiores índices gerais de abuso, mas o perfil de “Paixão Predominante” surpreendeu pela intensidade da agressão severa.
  • O estudo reforça: não é suficiente perguntar se o amor existe em um relacionamento — é preciso entender como esse amor está estruturado.

O Paradoxo que a Ciência Não Podia Ignorar

Por muito tempo, pesquisadores e profissionais de saúde mental trataram o amor e a violência como fenômenos mutuamente exclusivos. Se havia abuso, concluía-se que o amor havia se esgotado. Se havia amor, presumia-se proteção.

Esse pressuposto, além de clinicamente problemático, contribui para que vítimas de violência psicológica demorem a reconhecer a própria situação. Afinal, se elas ainda sentem paixão pelo parceiro — e frequentemente sentem — como aquilo pode ser violência?

Patrick Raynal, pesquisador sênior do INSERM (Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica), foi um dos autores que decidiram investigar empiricamente esse paradoxo. Segundo ele, “o discurso popular frequentemente assume que ‘o amor protege’ ou que relacionamentos abusivos carecem inteiramente de amor. Pesquisas anteriores, porém, sinalizavam um quadro mais complexo, onde amor e abuso podem coexistir.”

Para examinar essa dinâmica com rigor metodológico, a equipe recorreu à Teoria Triangular do Amor de Robert Sternberg, um dos frameworks mais consolidados da psicologia dos relacionamentos.

Os Três Vértices do Amor: Um Modelo que Explica Mais do que Parece

A teoria de Sternberg propõe que o amor é composto por três elementos fundamentais:

Intimidade: o sentimento de proximidade, conexão emocional e confiança mútua. É o componente que nos faz sentir vistos e seguros com o outro.

Paixão: os impulsos que motivam a atração física, o desejo e a intensidade emocional. É o componente que nos faz sentir vivos na presença do outro.

Compromisso: a decisão de permanecer junto e construir um futuro compartilhado. É o componente que ancora o relacionamento no longo prazo.

Combinações diferentes desses três elementos geram tipos distintos de amor. Um relacionamento com os três em equilíbrio é chamado de amor consumado — considerado o ideal. A ausência de todos configura a ausência de amor. Entre os extremos, existem configurações intermediárias com implicações muito diferentes para o bem-estar dos envolvidos.

Alta paixão sem intimidade está associada a maior agressão psicológica em relacionamentos aponta estudo

O Que o Estudo Fez

A equipe de pesquisa recrutou 1.061 mulheres para participar de uma pesquisa online. Todas tinham pelo menos 18 anos e estavam em relacionamentos de no mínimo 12 meses. A idade média era de aproximadamente 30 anos.

Três instrumentos padronizados foram utilizados:

  • Revised Conflict Tactics Scales (CTS2): avalia a frequência de comportamentos agressivos, distinguindo entre agressão menor e agressão severa.
  • Controlling Behavior Scale-Revised (CBS-R): mede formas de controle coercitivo, incluindo controle econômico, intimidação, manipulação emocional e isolamento social.
  • Sternberg’s Triangular Love Scale: mensura os três componentes do amor relatados pelas participantes em relação ao próprio relacionamento.

A partir dos escores de amor, os pesquisadores aplicaram uma análise de cluster para identificar grupos naturais de perfis amorosos na amostra. O resultado revelou quatro perfis distintos.

Os Quatro Perfis e o que Revelam

1. Amor Moderado (48% da amostra): Níveis moderadamente altos de intimidade, paixão e compromisso. O grupo mais equilibrado e o mais numeroso.

2. Ausência de Amor (12%): Escores significativamente abaixo da média nos três componentes. Reflete relacionamentos em que o vínculo amoroso se deteriorou de forma generalizada.

3. Baixa Paixão (24%): Intimidade e compromisso em níveis médios, mas paixão muito baixa. Esse perfil se assemelha ao que Sternberg denomina amor companheiro — típico de relacionamentos longos em que a atração física arrefeceu, mas a conexão e a estabilidade permanecem.

4. Paixão Predominante (14%): Paixão levemente acima da média, mas intimidade e compromisso significativamente inferiores ao restante da amostra. Um relacionamento movido pela atração intensa, sem as bases de confiança e projeto comum.

O Achado que Desafia o Senso Comum

Como esperado, o grupo Ausência de Amor apresentou os maiores índices gerais de abuso — mais agressão minor e severa, além de maiores taxas de controle econômico, intimidatório, emocional e por isolamento.

Mas o dado verdadeiramente surpreendente emergiu na comparação entre os grupos Baixa Paixão e Paixão Predominante.

Apesar de ambos apresentarem desequilíbrios nos componentes do amor, o grupo com alta paixão e baixa intimidade/compromisso registrou níveis mais elevados de agressão psicológica grave do que o grupo de baixa paixão — que, ironicamente, tinha um vínculo emocional e um senso de futuro compartilhado mais sólidos.

O grupo Paixão Predominante também relatou maiores níveis de controle ameaçador e controle emocional em comparação com o grupo Baixa Paixão. Tendências semelhantes apareceram para controle econômico, intimidatório e por isolamento.

Nas palavras de Raynal: “O achado mais marcante e contraintuitivo foi que alta paixão combinada com baixa intimidade e baixo compromisso estava associada a agressão psicológica mais severa do que relacionamentos caracterizados por baixa paixão, mas maior intimidade e compromisso. Isso desafia a crença comum de que paixão é inerentemente positiva ou protetora.”

Os Bastidores do Comportamento: Por que a Paixão Desacompanhada Pode ser Perigosa

A Teoria Triangular do Amor (Sternberg, 1986) e o Problema dos Perfis Desequilibrados

Do ponto de vista teórico, a paixão é o componente mais instável do amor. É ativada por mecanismos neurobiológicos associados ao sistema de recompensa dopaminérgico — especialmente o circuito mesolímbico, que inclui o núcleo accumbens e a área tegmental ventral. A ativação intensa desse circuito produz os estados de euforia, obsessão e urgência característicos do apaixonamento.

O problema surge quando a paixão não é modulada por intimidade (que ativa circuitos de confiança e apego seguro, mediados em parte pela ocitocina) nem ancorada em compromisso (que envolve processos prefrontais de regulação, planejamento e controle de impulsos).

Em termos clínicos, um relacionamento de alta paixão e baixa intimidade frequentemente corresponde a padrões de apego ansioso ou apego evitativo, nos quais a intensidade emocional não se traduz em segurança relacional. A instabilidade resultante pode criar um terreno propício para comportamentos de controle coercitivo como estratégia de regulação da ansiedade — o parceiro controlador, nesse modelo, tenta gerenciar a incerteza relacional por meio da dominância.

A passagem da paixão obsessiva para a agressão psicológica pode ser compreendida pela sobreposição entre ciúme patológico, vigilância e coercive control, conceito amplamente estudado por Evan Stark. Nesse modelo, a violência psicológica não é um evento isolado, mas uma estratégia sistemática de dominação que se alimenta precisamente da instabilidade emocional do vínculo.

Aplicação Prática: O que Isso Muda na Clínica e no Cotidiano

Para profissionais que trabalham com vítimas de violência doméstica, este estudo oferece uma lente diagnóstica relevante. Perguntar apenas “você ainda ama seu parceiro?” é insuficiente. A questão mais reveladora é: como esse amor está estruturado?

Quando uma cliente relata paixão intensa, mas incapacidade de confiar no parceiro ou ausência de projeto comum, isso não é um sinal de que “o relacionamento ainda tem salvação” — pode ser, ao contrário, um indicador de risco elevado.

Intervenções baseadas em psicoeducação sobre os componentes do amor podem ajudar as pessoas a nomearem o que sentem com mais precisão, diferenciando a excitação da atração física da segurança emocional que sustenta um vínculo saudável.

Na esfera preventiva, o estudo sugere que programas voltados à saúde relacional deveriam incluir conteúdo sobre o que constitui um relacionamento equilibrado — não apenas o que constitui violência —, trabalhando com o modelo triangular de forma acessível para jovens adultos.

Reflexão NeuroPsy:

  • Este estudo levanta uma questão filosófica incômoda: e se a paixão, essa experiência que a cultura ocidental romantiza como o ápice do amor, for também uma das suas formas mais frágeis e potencialmente destrutivas?
  • A tradição literária do Ocidente — de Romeu e Julieta a grandes obras do cinema contemporâneo — frequentemente glorifica o amor apaixonado e turbulento como o mais autêntico. A intensidade é confundida com profundidade. O sofrimento, com prova de amor.
  • Os dados de Raynal e colaboradores sugerem que essa narrativa não é apenas romantizada — ela pode ser perigosa. Ao normalizar a paixão sem intimidade como forma legítima de amor, a cultura fornece às vítimas de violência psicológica um enquadramento que dificulta o reconhecimento do abuso.
  • Do ponto de vista da ética clínica, isso implica uma responsabilidade coletiva: desmistificar o amor apaixonado como proteção automática não é cinismo — é cuidado. A profundidade de um vínculo não se mede pela intensidade da atração, mas pela qualidade da confiança, da reciprocidade e do respeito que o sustenta.
  • O desafio para pesquisadores, clínicos e educadores é construir uma linguagem pública sobre o amor que seja ao mesmo tempo emocionalmente honesta e cientificamente informada — capaz de reconhecer a beleza da paixão sem ignorar os seus riscos quando desacompanhada de bases sólidas.

Este estudo reforça que compreender relacionamentos exige ir além das categorias simplistas de “amor” e “desamor”. A estrutura interna do vínculo — o equilíbrio entre intimidade, paixão e compromisso — importa tanto quanto a sua existência.

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Referência original: Ablana, C., Raynal, P., & Séjourné, N. (2024). Love’s Paradox: Unraveling the Dynamics of Love and Psychological Intimate Partner Violence Against Women. Violence Against Women.

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Graduando em Psicologia, une o rigor da PBE à sua sólida experiência no mercado de tecnologia e inteligência de negócios. É o idealizador do NeuroPsy.com.br e PsicologiaCognitiva.com.br, projetos dedicados à democratização da psicologia baseada em evidências e neurociências. No BrainContent, sua atuação foca em traduzir conceitos científicos em estratégias práticas.

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