Você já conheceu uma mulher que parecia absolutamente convicta de sua própria superioridade — charmosa, assertiva, incapaz de aceitar críticas — e se perguntou o que, afinal, alimenta essa visão tão inflada de si mesma? A ciência vinha tentando encontrar uma resposta biológica para isso. Afinal, no caso dos homens, a testosterona já foi apontada como um dos motores hormonais do narcisismo. Era natural perguntar: existe um equivalente feminino?
Um novo estudo publicado no Journal of Research in Personality finalmente responde a essa pergunta — e a resposta é mais fascinante do que qualquer confirmação simples seria. Pesquisadores da University of Warsaw descobriram que mulheres narcisistas acreditam ter níveis elevados de estradiol, mas o sangue delas conta uma história diferente. A biologia não confirma a autopercepção. E isso revela algo profundo sobre como o narcisismo opera na mente humana.
Neste artigo, você vai entender o que o estudo encontrou, o mecanismo psicológico por trás da discrepância entre crença e realidade hormonal, e o que isso significa para a psicologia clínica e para a nossa compreensão da personalidade feminina.
Resumo para Mentes Inquietas:
- Mulheres com traços narcisistas grandiosos acreditam ter níveis mais altos de estradiol do que outras mulheres — mas os exames de sangue não confirmam isso.
- Não foi encontrada associação estatisticamente significativa entre os níveis reais de estradiol e o narcisismo, em nenhuma das duas amostras do estudo.
- O narcisismo agêntico (voltado para autopromoção e admiração) foi fortemente associado à autoavaliação elevada de atratividade física.
- O estudo sugere que o percurso hormonal do status-seeking em mulheres é distinto do masculino, e que a biologia percebida pode ser tão relevante quanto a biologia real na estrutura narcisista.
O Narcisismo e a Busca por Status: Uma Questão de Biologia?
O narcisismo não é um traço monolítico. A psicologia da personalidade distingue duas grandes formas. O narcisismo grandiosos envolve alta autoestima, assertividade e exibicionismo. Já o narcisismo vulnerável é marcado por defensividade, insegurança e retraimento social. No interior do tipo grandioso, há um componente especialmente estudado: o narcisismo agêntico, que impulsiona a autopromoção agressiva para obter admiração e status.
Por décadas, pesquisadores investigaram as raízes biológicas desses comportamentos. Em homens, a ligação entre narcisismo grandiosos e testosterona é bem documentada. O hormônio está associado à busca por dominância e status social — traços que se alinham diretamente com o narcisismo agêntico masculino.
A pergunta que motivou o estudo dos pesquisadores Jeremiasz Górniak e Marcin Zajenkowski, da University of Warsaw, em colaboração com Gilles E. Gignac, Oliwia Maciantowicz e Konrad S. Jankowski, foi direta: existe um mecanismo hormonal paralelo nas mulheres, com o estradiol desempenhando o papel que a testosterona exerce nos homens?
O estradiol — a principal forma de estrogênio e hormônio reprodutivo central — já havia sido associado em estudos anteriores à autoconfiança, assertividade e competitividade intrassexual (a motivação de competir com outras mulheres por parceiros ou status). Mulheres com níveis mais elevados do hormônio tendem a ser percebidas como mais femininas e a demonstrar maior motivação por poder. Esses traços se sobrepõem às características da autopromoção narcisista, criando uma hipótese aparentemente sólida.
O Desenho do Estudo: Rigor Metodológico
Para testar essa hipótese, os pesquisadores conduziram dois estudos independentes. O primeiro incluiu 186 participantes do sexo feminino; o segundo ampliou a amostra para 269 mulheres. As participantes eram predominantemente jovens adultas, com média de idade em torno de 22 anos.
Os critérios de participação foram rigorosos. Foram recrutadas apenas mulheres que não faziam uso de contraceptivos hormonais e que apresentavam ciclos menstruais regulares, com duração entre 20 e 30 dias — condição necessária para garantir que as bases endócrinas naturais não fossem mascaradas por hormônios sintéticos.
As coletas de sangue foram realizadas no início da manhã, entre 7h30 e 9h30, controlando as flutuações circadianas dos hormônios. As amostras foram coletadas na fase inicial do ciclo menstrual, especificamente nos primeiros cinco dias após o início da menstruação — um período em que os níveis de estradiol são relativamente baixos e estáveis. As participantes foram orientadas a evitar álcool, exercícios intensos e medicamentos nas 24 horas anteriores ao teste, além de jejuar de alimentos e cafeína na manhã da coleta.
Após os exames laboratoriais, as participantes responderam a avaliações psicológicas padronizadas, incluindo o Narcissistic Admiration and Rivalry Questionnaire e o Five Factor Narcissism Inventory. Foram também solicitadas a avaliar sua própria atratividade e a estimar seus próprios níveis de estradiol em comparação às outras mulheres, em uma escala de “muito baixo” a “muito alto”.
Os Resultados: Quando a Biologia e a Autopercepção Divergem
A análise dos exames de sangue foi conclusiva: em ambos os estudos, não foi encontrada associação estatisticamente significativa entre os níveis objetivos de estradiol e o narcisismo grandiosos. A quantidade do hormônio circulando no sangue das participantes não previa sua pontuação na escala de narcisismo agêntico.
Os pesquisadores também investigaram a relação com o narcisismo vulnerável. No primeiro estudo, houve uma leve correlação entre estradiol e traços neuróticos ou vulneráveis. No entanto, essa associação não se replicou no segundo estudo. Quando os dados de ambas as amostras foram combinados, não havia ligação estatística entre o hormônio e nenhuma forma de narcisismo.
O dado mais revelador, porém, veio dos autorrelatos. Mulheres com pontuação elevada em narcisismo agêntico avaliaram consistentemente seus próprios níveis de estradiol como superiores aos das outras — mesmo quando os exames laboratoriais demonstravam o contrário. Elas acreditavam possuir um perfil hormonal diferenciado que simplesmente não existia na realidade biológica mensurada.
Esse padrão de autoexaltação também se estendeu à aparência física. Altas pontuações em narcisismo agêntico foram fortemente associadas a uma autoavaliação de atratividade mais elevada. As mulheres que se percebiam como mais narcisistas também se avaliavam como as mais belas. Houve ainda uma correlação entre as duas autoavaliações: mulheres que se percebiam como mais atraentes também tendiam a acreditar ter níveis mais altos de estradiol — sugerindo que associam o hormônio a feminilidade e desejabilidade.

Os Bastidores do Cérebro: Narcisismo Agêntico e Autoconceito Biológico
- O narcisismo agêntico é a faceta da personalidade grandiosa que impulsiona a autopromoção para obter admiração. Em termos de modelos neuropsicológicos, esse padrão está associado à ativação de circuitos de regulação de status social no córtex pré-frontal medial e em estruturas límbicas como a amígdala.
- O que este estudo adiciona a esse quadro é o conceito de autoconceito biológico inflado: narcisistas agênticos não apenas se percebem como superiores em habilidades ou aparência — elas co-optam marcadores biológicos de feminilidade e desejabilidade (como o estradiol) para compor uma narrativa de superioridade hormonal.
- Esse fenômeno dialoga com a teoria da autoavaliação narcisista seletiva (Morf & Rhodewalt, 2001), segundo a qual os narcisistas constroem e mantêm sua identidade inflada ao interpretar seletivamente evidências ambíguas como confirmações de sua superioridade. Estender essa tendência ao próprio perfil hormonal representa uma forma sofisticada — e inconsciente — de autoaprimoramento identitário.
- Do ponto de vista neurobiológico, pesquisas anteriores indicam que tanto a testosterona em homens quanto o estradiol em mulheres influenciam o comportamento de busca por status através de circuitos dopaminérgicos do sistema mesolímbico. No entanto, enquanto a testosterona parece atuar de forma mais generalizada sobre a dominância social, o estradiol demonstra influências mais contextuais — especialmente em cenários de competição intrassexual e contextos de reprodução. A ausência de correlação com narcisismo de traço estável pode, portanto, refletir a natureza mais circunstancial do hormônio feminino.
Aplicação Prática: O Que Isso Significa para a Clínica
Para psicólogos e psiquiatras, este estudo oferece um refinamento importante na compreensão do narcisismo feminino. A tentação de buscar equivalências diretas entre mecanismos hormonais masculinos e femininos pode levar a modelos explicativos simplificados — e clinicamente equivocados.
A descoberta de que mulheres narcisistas constroem narrativas sobre sua própria biologia como parte do sistema de autoexaltação tem implicações práticas. Na avaliação clínica, o profissional pode encontrar pacientes que expressam com convicção uma percepção de si mesmas como biologicamente privilegiadas (mais férteis, mais femininas, mais atraentes), o que pode ser lido como um componente do funcionamento narcisista e não como um dado objetivo.
Além disso, o estudo reforça a importância de não universalizar modelos baseados em amostras masculinas. As vias pelas quais a busca por status se manifesta biologicamente em mulheres podem ser mais sensíveis ao contexto cíclico hormonal, à fase do ciclo menstrual e a estímulos sociais específicos. Intervenções clínicas que considerem essa variabilidade tendem a ser mais precisas.
Reflexão NeuroPsy:
Este estudo nos confronta com uma das perguntas mais antigas da filosofia da mente: o que é o “eu” senão uma narrativa que construímos sobre nós mesmos?
- A ideia de que mulheres narcisistas acreditam possuir uma biologia superior — um estradiol mais elevado, uma feminilidade mais intensa — mesmo sem que o sangue confirme isso, não é apenas um dado curioso. É uma janela para o modo como o ser humano constrói identidade. Incorporamos ao nosso autoconceito não apenas nossas ações e talentos, mas também uma suposta essência biológica que nos diferenciaria dos outros.
- Há algo profundamente perturbador e, ao mesmo tempo, fascinante nisso. O narcisismo não se limita a reivindicar superioridade nas dimensões visíveis — inteligência, beleza, sucesso. Ele desce até o nível molecular, colonizando até o próprio corpo como território de grandiosidade.
- Isso levanta uma questão ética relevante para o futuro da neurociência e da psiquiatria: à medida que exames laboratoriais e biomarcadores se tornam mais acessíveis, como lidaremos com a tendência humana de interpretar esses dados através do filtro da identidade? E se um resultado de hormônio puder ser transformado em mais um espelho de Narciso — refletindo não a realidade, mas o que desejamos enxergar? A ciência pode medir o hormônio. Mas quem mede a narrativa que construímos ao redor dele?
O estudo de Górniak, Zajenkowski e colaboradores representa um avanço crítico na nossa compreensão do narcisismo feminino. Ele demonstra que a busca por um equivalente hormonal feminino da testosterona — pelo menos em sua forma de traço estável e medido em repouso — não encontra suporte empírico. O estradiol, no estado basal do início do ciclo, não prediz narcisismo.
O que prediz, entretanto, é igualmente revelador: a crença sobre o próprio estradiol. O narcisismo, em sua essência, não exige que a biologia colabore. Ele reescreve a biologia na mente do indivíduo para que ela se encaixe na narrativa de superioridade que já estava lá.
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Referência original: Górniak, J., Zajenkowski, M., Gignac, G. E., Maciantowicz, O., & Jankowski, K. S. (2025). Hormonal underpinnings of narcissism in women: The role of estradiol measured from blood and self-report. Journal of Research in Personality.
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