Durante anos, pesquisadores trataram o voto populista como um bloco homogêneo: uma massa de “descontentes” mobilizados pela raiva. Um estudo publicado no periódico Frontiers in Political Science, conduzido pelas pesquisadoras Anna Brigevich e Andrea Wagner, desafia essa simplificação. Os dados, coletados em 9 países com mais de 9.000 participantes, apontam que existem dois perfis cognitivos e motivacionais completamente distintos por trás do apoio aos chamados líderes “strongman” — e confundir um com o outro pode ser um erro analítico (e clínico) significativo.
O que você vai aprender aqui: como a psicologia política diferencia o eleitor antiestablishment do eleitor autoritário, quais países pertencem a cada perfil e o que isso revela sobre os mecanismos mentais que nos tornam suscetíveis ao discurso populista.
Resumo para Mentes Inquietas:
- O estudo identificou dois tipos distintos de eleitores populistas: os antiestablishment (que buscam maior representação democrática) e os autoritários (que apoiam exclusão de grupos minoritários).
- Em Itália, Hungria, Polônia, Espanha, Brasil e Argentina, o populismo é predominantemente movido por atitudes autoritárias.
- Em França e Canadá, o motor do apoio populista é a desconfiança nas elites políticas — uma forma mais “clássica” de populismo.
- Nos EUA, nenhum dos dois perfis explicou o apoio a Donald Trump de forma estatisticamente relevante, sugerindo uma dinâmica diferente e ainda não totalmente compreendida.
O que é, de fato, um “eleitor populista”?
Antes de entrar nos dados, é necessário limpar o terreno conceitual.
Populismo não é uma ideologia — é um estilo de política. Pode aparecer tanto na esquerda quanto na direita do espectro. O que define o populista é a narrativa: existe “o povo virtuoso” de um lado e “uma elite corrupta e autocrática” do outro. O líder populista se apresenta não como um representante dentro do sistema, mas como a voz autêntica e incontaminada dessa maioria silenciosa.
Líderes de esquerda geralmente identificam o inimigo nas corporações e na desigualdade econômica. Líderes de direita costumam apontar para imigrantes, minorias ou agentes externos como ameaças à coesão cultural da nação. Apesar das diferenças ideológicas, ambos compartilham o mesmo mecanismo narrativo: a divisão binária entre “nós” e “eles”.
O problema, como revelam Brigevich e Wagner, é que esse “nós” pode ser construído de maneiras radicalmente opostas na mente do eleitor.
Os Dois Perfis: Antiestablishment vs. Autoritário
A pesquisa testou seis dimensões de atitude populista nos participantes:
Anti-elitismo: a crença de que a política é dominada por políticos que protegem os interesses das elites. Centramento no povo (people-centrism): a crença de que o povo deve ter a palavra final nas grandes decisões políticas. Majoritarismo: a vontade da maioria deve sempre prevalecer. Strongman: a crença de que um líder forte no governo é benéfico para o país. Elitismo: a crença de que os políticos possuem o conhecimento necessário para resolver os problemas do país. Nacionalismo: identificação e suporte aos interesses da própria nação, especialmente em detrimento de outras nações.
A análise estatística revelou dois agrupamentos naturais dessas atitudes:
Atitudes antiestablishment: formadas pela combinação de anti-elitismo e centramento no povo. Representam um impulso genuíno por maior participação democrática — uma insatisfação com a distância entre governantes e governados.
Atitudes autoritárias: formadas por strongman, elitismo e nacionalismo. Representam um desejo por uma forma excludente de poder majoritário — a ideia de que o líder forte deve moldar a sociedade de acordo com os valores do grupo dominante, marginalizando quem não se enquadra.
O majoritarismo flutuou entre os dois grupos dependendo do país — um dado por si só sugestivo sobre como o mesmo conceito é cognitivamente processado de forma diferente em contextos culturais distintos.
Os Bastidores do Cérebro
Psicologia Política e os Fundamentos Motivacionais do Voto Populista
A distinção entre os dois perfis identificados no estudo tem raízes em conceitos bem estabelecidos da psicologia social e política.
O eleitor antiestablishment apresenta um perfil motivacional associado ao que os psicólogos chamam de privação relativa — a percepção de que um grupo legítimo (o “povo comum”) está sendo sistematicamente excluído de recursos, poder ou reconhecimento em comparação ao que considera justo. Esse perfil é compatível com pesquisas sobre justiça procedimental: o que irrita o eleitor não é apenas o resultado das políticas, mas a percepção de que o processo decisório é ilegítimo e opaco.
O eleitor autoritário, por sua vez, alinha-se com o constructo de autoritarismo de direita (RWA) de Bob Altemeyer e, mais recentemente, com as pesquisas sobre dominância de orientação social (SDO) de Jim Sidanius e Felicia Pratto. Esses eleitores apresentam alta tolerância — ou mesmo preferência — por hierarquias sociais rígidas, baixa abertura para ambiguidade e uma tendência acentuada a perceber grupos externos como ameaças à coesão do endogrupo. Neurobiologicamente, pesquisas com neuroimagem funcional sugerem que indivíduos com perfil mais autoritário demonstram hiperativação da amígdala em resposta a estímulos de ameaça social percebida, o que amplifica respostas de medo e agressividade intergrupal mesmo diante de ameaças objetivamente baixas.
A sobreposição entre elitismo e autoritarismo no estudo é particularmente interessante: o eleitor autoritário não é necessariamente “antipolítico” — ele aceita a competência das elites, desde que estas operem em defesa dos valores do grupo majoritário. Isso explica a aparente contradição de pessoas que criticam as elites em geral, mas veneram um líder forte com amplos poderes. O critério não é o poder em si, mas quem o detém e em nome de quem é exercido.
O Caso Americano: Uma Anomalia nos Dados
Um dos achados mais intrigantes do estudo — e que certamente vai gerar debate nas próximas edições das revistas de ciência política — é o resultado obtido para os Estados Unidos.
Nenhuma das duas dimensões — nem atitudes antiestablishment, nem autoritárias — foi capaz de predizer de forma estatisticamente significativa o apoio a Donald Trump entre os participantes americanos.
As autoras reconhecem que o populismo americano tem raízes históricas longas, remontando à década de 1890, inicialmente de inclinação majoritariamente esquerdista. A atual dominância de um populismo de direita coexiste com figuras populistas de esquerda expressivas como Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez. Isso sugere que o campo populista americano é particularmente fragmentado — e que o suporte a Trump pode envolver variáveis atitudinais e identitárias que o instrumento utilizado neste estudo ainda não captura plenamente.
Para quem trabalha com diagnóstico organizacional e comportamento humano, há aqui uma lição transferível: ferramentas de medição calibradas para outros contextos podem falhar ao diagnosticar sistemas com histórico estrutural único. A validade transcultural de qualquer instrumento psicométrico ou político precisa ser testada — não assumida.

Aplicação Prática
Para profissionais de psicologia, comunicação, gestão e política pública, este estudo oferece implicações concretas:
Em contextos clínicos, compreender se um paciente com discurso político inflamado opera a partir de privação relativa (antiestablishment) ou de necessidade de hierarquia e exclusão (autoritário) orienta intervenções diferentes. O primeiro pede escuta ativa e validação da experiência de injustiça; o segundo pode requerer trabalho mais profundo sobre tolerância à incerteza e processamento de ameaça social.
Em comunicação institucional, mensagens que apelam para “dar voz ao povo” ativam o eleitor antiestablishment — mas podem não mobilizar (ou podem até alienar) o eleitor autoritário, que responde melhor a narrativas de ordem, pertencimento e proteção do grupo.
Em políticas públicas de prevenção ao autoritarismo, os dados sugerem que estratégias de reforço democrático (como educação cívica e transparência institucional) podem ser eficazes para o perfil antiestablishment, mas tendem a ser insuficientes — ou mesmo contraproducentes — para o perfil autoritário, que requer abordagens voltadas à redução de ansiedade intergrupal e fortalecimento de identidades inclusivas.
Reflexão NeuroPsy:Este estudo nos coloca diante de uma questão filosófica que a neurociência e a psicologia política ainda não responderam completamente: até que ponto o voto é um ato racional e até que ponto é uma expressão de necessidades emocionais e identitárias profundas?
- Se parte significativa do eleitorado que apoia líderes autoritários o faz movida por medo de perda de identidade e necessidade de coesão grupal — mecanismos com bases neurobiológicas bem documentadas —, então a “culpa moral” atribuída popularmente a esses eleitores começa a dar lugar a uma responsabilidade analítica mais complexa.
- Não se trata de absolver escolhas políticas com consequências reais para grupos vulneráveis. Trata-se de entender que combater o autoritarismo sem compreender seus mecanismos psicológicos é como tratar uma febre sem identificar a infecção subjacente: produz alívio temporário sem resolver a causa.
- A distinção entre os dois tipos de eleitor populista importa porque ela revela que não há uma única “vacina democrática”. O remédio para quem busca mais representação é diferente do remédio para quem busca mais controle. E confundir os dois é, historicamente, um erro que democracias têm repetido com consequências graves.
A pesquisa de Anna Brigevich e Andrea Wagner representa um avanço metodológico relevante: ela substitui a noção monolítica de “eleitor populista” por um mapa diferenciado de motivações, contextos e mecanismos psicológicos. O populismo não é uma patologia uniforme — é um sintoma com etiologias distintas.
Entender isso é o primeiro passo para responder a ele de forma inteligente.
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Referência original: Brigevich, A., & Wagner, A. (2025). Anti-establishment versus authoritarian populists and support for the strong(wo)man. Frontiers in Political Science.
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